sábado, 12 de junho de 2010

De Marias em Marias
Outra noite assistindo ao vídeo: “Vida Maria” do diretor Márcio Ramos, que por sinal foi premiado como uma excelente produção em animação gráfica em 3D, ao assisti-lo me comovi muito ao sentir o importante papel que a mulher brasileira nordestina tem em manter a sua família e a sua própria vida, ela representa e sintetiza toda a cultura do povo deste lugar.
A animação se passa no interior do nordeste em uma pequena propriedade onde a seca é o grande desafio diário que se tem de vencer, a personagem principal retrata ciclos de vida repetitivos que acontecem em um mesmo local, apresentando estas Marias desde a infância até a velhice. Cabe aqui ressaltar que o ponto principal das cenas é o fato do entusiasmo da criança ao tentar escrever o seu nome ser frustrado pela mãe que a manda fazer os afazeres da lida doméstica, e a pequena criança não consegue mais sair destes afazeres entrando em um ciclo pré-determinado que é passado de geração para geração quase que sem mudar nada.
A frustração da menina passa ao espectador um sentimento de tristeza de impotência diante da enorme roda da vida que ela se encontra exposta, a educação como uma forma de independência e de busca de identidade não acontece, os fatores naturais estão acima dos pessoais e eles determinam a cultura do povo deste lugar, afinal para que saber ler se não se tem o que comer? É esta a idéia que se concretiza quando a menina se torna mãe e repete o mesmo comportamento com a sua filha, impedindo-a de escrever como a sua mãe faz com ela.
Por que o simples fato de escrever o nome não acontece? Porque tantos nomes são um só? Por que as políticas não interferem neste processo? Por que nos calamos? Por que tudo isto é distante?
Esta animação nos faz pensar muito sobre a política do oprimido que Paulo Freire tanto combateu. Fazer da educação uma forma real e viva dentro de uma comunidade ou de uma simples família é fazer o ser humano entender que existem saídas, que se pode conseguir mudar sem precisar morrer.
O Brasil se encontra em uma situação política muito desigual entre os grandes centros e as comunidades rurais simples, a tecnologia, a medicina e a arte deveriam ter propostas de atuação e de educação para uma solução em médio prazo destes problemas, o entusiasmo de Maria não deveria ser deixado de lado, mas sim incentivado a fazer parte da sua cultura e do seu crescimento como cidadã.